Inibição da Angiotensina e da Neprilisina Vs iECA na Insuficiência Cardíaca: Análise dos resultados do Estudo PARADIGM-HF


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A insuficiência cardíaca (IC) é uma síndrome clínica causada por uma anormalidade estrutural e/ou funcional resultando em redução do débito cardíaco e/ou pressões intracardíacas elevadas em repouso ou durante estresse. Na sua fisiopatologia, destacam-se além dos fatores hemodinâmicos os fatores neuro-humorais, sobretudo a ativação do Sistema Renina Angiotensina-Aldosterona (SRAA) que traz como atores moleculares principais a Enzima Conversora de Angiotensina (ECA) e o seu produto de catálise a Angiotensina II. Assim, os inibidores da ECA (iECA) têm sido fundamentais para o tratamento da insuficiência cardíaca ,uma vez que o enalapril mostrou reduzir o risco de morte em dois ensaios:  o CONSENSUS e o SOLVD. Ficou demonstrado que o tratamento em longo prazo com enalapril diminui o risco relativo de morte em 16% entre pacientes com sintomas leves a moderados.
                A inibição da Neprilisina é responsável pelo aumento dos níveis séricos de peptídeos vasoativos que possuem ação antagônica à ativação deletéria do SRAA. Em estudos experimentais, a inibição combinada do SRAA e da neprilisina apresentou efeitos superiores quando comparado as abordagens isoladas, porém em ensaios clínicos a inibição combinada foi associada à angioedema grave. Desse modo, foi desenvolvido um composto supramolecular denominado LCZ696 que consiste na combinação de Sacubitril (inibidor da Neprilisina) e Valsartan (bloqueador do receptor de Angiotensina).
                Portanto, o ensaio PARADIGM-HF examinou se os efeitos em longo prazo da LCZ696 na morbidade e na mortalidade eram superiores aos efeitos da inibição da ECA com enalapril em pacientes com IC crônica e com fração de ejeção reduzida.  O ensaio foi duplo-cego randomizado, de modo que foram randomizados 8442 pacientes com IC de classe II, III ou IV e uma fração de ejeção de 40% ou menos para receber LCZ696 (dose de 200 mg 2x ao dia) ou enalapril ( uma dose de 10 mg 2x ao dia), além da terapia recomendada. O desfecho primário foi composto por mortes por causas cardiovasculares ou primeira hospitalização por insuficiência cardíaca, mas o ensaio foi projetado para detectar uma diferença nas taxas de mortalidade por causas cardiovasculares.
                O ensaio foi interrompido cedo, de acordo com regras pré-especificadas, após uma mediana de seguimento de 27 meses uma vez que o limite para um benefício evidente com LCZ696 foi ultrapassado. Assim, tratou-se de um estudo truncado o que poderia predispor a superestimativa do benefício ou simulação de um falso efeito da droga. Porém, apesar de ser um ensaio truncado, no momento do fechamento do PARADIGM-HF todos os pacientes já tinham sido incluídos e foram obtidos 2031 desfechos primários de modo a preservar sua veracidade. O desfecho primário ocorreu em 914 pacientes (21,8%) no grupo LCZ696 e em 1117 pacientes no grupo enalapril ( 26,5%). Um total de 714 pacientes (17%) que receberam LCZ696 e 835 pacientes (19,8%) que receberam enalapril morreram de modo que desses pacientes , 558 (13,3%) e 693 (16,5%) morreram por causas cardiovasculares (P<0,001) .Em comparação com enalapril ,LCZ696 também reduziu o risco de hospitalização por insuficiência cardíaca em 21% (P<0,001).

                Quando se faz uma análise sistematizada do estudo percebe-se o baixo risco de víés uma vez que se trata de um ensaio randomizado o que diminui o viés de confusão, duplo-cego o que reduz o viés de aferição do desfecho e etc. Ademais, as conclusões estão baseadas em análise de desfecho primário e de toda a amostra do ensaio o que reduz os erros aleatórios. Em relação à magnitude, o NNT é igual a 21, ou seja, 21 pacientes precisam utilizar LCZ696, durante 27 meses, para prevenir um desfecho (óbito de causa cardiovascular ou hospitalização por insuficiência cardíaca). Assim, esse efeito é tanto quantitativamente como qualitativamente relevante.
                Quando o ensaio é analisado do ponto de vista da demonstração da tolerabilidade e da segurança da terapia com LCZ696 pode-se observar um problema. O estudo utiliza uma estratégia pouco utilizada em ensaios clínicos de fase III, ou seja, a utilização de uma fase de run-in. Dessa forma, antes de serem randomizados, os pacientes foram submetidos, de maneira aberta, por 4 a 6 semanas , ao LCZ696 e somente entraram no estudo aqueles que toleraram o medicamento. O estudo então progrediu apenas com pacientes que toleraram o LCZ696, o que reduz a validade externa em termos de segurança e de eficácia uma vez que má tolerância reduz a eficácia.
                Outro ponto importante a ser questionado é sobre qual foi o conceito testado no PARADIGM-HF, ou seja, saber se o benefício clínico advém verdadeiramente da nova droga inibidora da neprilisina o sacubitril. O método correto deve se basear na comparação entre a nova terapia e um grupo controle sem a terapia, ou seja, o correto é comparar intervenção + tratamento padrão ideal VS tratamento padrão ideal. No estudo PARADIGM-HF, o tratamento padrão no grupo Sacubitril foi melhor do que o tratamento padrão do grupo controle de modo que no grupo sacubitril objetivou um bloqueio do SRAA com dose máxima de Valsartan (320 mg/dia) comparado ao grupo controle que utilizou metade da dose máxima de enalapril (20 mg/dia de forma fixa). Assim, a questão que se coloca é: a maior eficácia do LCZ696 está associada ao advento do sacubitril ou ao maior bloqueio do SRAA?
                Os autores justificaram, no artigo, que a inibição simultânea da ECA e da neprilisina deveria ser evitada pelo risco de angioedema. Adicionalmente, outra crítica feita é em relação a dose-alvo de enalapril utilizada no ensaio PARADIGM-HF quando comparada a outros estudos de impacto na IC como o CONSENSUS e o SOLVD. Assim, no estudo PARADIGM-HF a dose utilizada foi 10 mg BID enquanto no estudo CONSENSUS a dose proposta foi de 40 mg ,embora uma minoria tenha atingido a dose ,sendo a média de 17 mg. Por isso, questiona-se se a utilização da dose média de 20 mg ao invés de dose fixa seria mais eficaz e se o bloqueio no grupo controle foi menor que no grupo sacubitril.
                A diretriz americana sobre IC é mais flexível em relação a posologia alvo do enalapril aceitando tanto 10 mg BID quanto 20 mg BID. Por outro lado, a diretriz da Sociedade Europeia de Cardiologia recomenda a dose-alvo do CONSENSUS, ou seja, 20 mg BID. Os autores do estudo PARADIGM-HF concluíram que a inibição dupla do SRAA e da neprilisina foi superior à inibição isoladamente da ECA pelo enalapril na redução do risco de morte e de hospitalização por IC crônica. Apesar da conclusão do estudo, deve-se estar atento às limitações apresentadas por ele, sobretudo em relação à tolerabilidade e em relação à dose de bloqueio nos grupos de comparação. Assim, é necessária a conjugação da evidência trazida pelo estudo PARADIGM-HF em relação ao LCZ696, a experiência profissional para o uso desta nova classe de drogas e a peculiaridade cllínica de cada paciente no manejo da IC. 
McMurray JJV, Packer M, Desai AS, et al. Angiotensin-Neprilysin Inhibition versus Enalapril in Heart Failure. N Eng J Med published on line on August 30, 2014. DOI: 10.1056/NEJMoa1409077.
               

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