Música é uma combinação de sons rítmicos, harmônicos e
melódicos, sendo que muitos povos, através da história, acreditavam em seu
efeito medicinal. Musicoterapia é o processo sistemático de intervenção em
que o terapeuta ajuda o paciente a promover a saúde utilizando experiências
musicais e as relações que se desenvolvem através delas como forças dinâmicas
de mudança. O seu mecanismo é ainda bastante controverso, e existem
diversas teorias que se somam para tal explicação, e diante disso, o estudo
a ser analisado resolveu verificar de forma objetiva o efeito da música no
pós-operatório imediato de crianças submetidas a cirurgia cardíaca e avaliar de
forma subjetiva a ação da música no controle da dor, em conjunto com ações
terapêuticas já usadas na prática médica convencional.
Trata-se de um ensaio clínico aleatorizado e
controlado por placebo, o qual, no caso em estudo, foi a ausência de música.
Foram estudadas 84 crianças consecutivas de 1 dia a 16 anos de idade (faixa de
idade específica da UTI), que foram submetidas a cirurgia cardíaca, em seu
pós-operatório imediato, definido como as 24 primeiras horas após a cirurgia, e
que se encontravam em uma UTI exclusivamente cardiopediátrica do Hospital do
Coração do Real Hospital Português de Pernambuco, no período de janeiro a junho
de 2004. Foi estabelecida a razão de 1 controle:3 intervenção e estimou-se que,
no grupo não exposto (controle), o percentual de pontuação na escala facial de
dor igual ou superior a 2 ao término da intervenção seria da ordem de 65% e, no
grupo dos expostos (intervenção), seria de 25%, resultando na estimativa
amostral em 18 não expostos:54 expostos. Após a cirurgia e com o consentimento
prévio dos pais através do termo de compromisso livre e esclarecido, as
crianças foram aleatorizadas de forma sistemática (três intervenções
consecutivas seguidas de um controle) e submetidas a uma sessão de 30 minutos
de musicoterapia, utilizando música clássica previamente escolhida (Primavera,
das Quatro Estações, de Vivaldi). A escolha da música foi baseada em estudos
anteriores, os quais mostraram que músicas relaxantes (clássicas suaves) são
compostas de amplitudes baixas, ritmo simples e direto e uma freqüência (tempo)
de aproximadamente 60 a 70 batidas/minuto.
Foram avaliadas as variáveis FC (Frequência Cardíaca), PA (Pressão
Arterial), PAM (Pressão Arterial Média), FR (Frequência Respiratória), T
(Temperatura) e SatO2 (Saturação de Oxigênio), através de monitor
cardiopulmonar Siemens SC 6002 XL, antes de iniciarmos a música e 30 minutos
após (ainda não se sabe o tempo ótimo, mas trabalhos sugerem uma variação de 25
a 90 minutos). Foram também observadas outras variáveis, como idade,
sexo, tipo de cardiopatia e tipo de cirurgia cardíaca quanto à severidade
(critérios de Jenkins et al.), bem como a sua correlação com as demais
variáveis. Quanto ao tipo de cardiopatia, os pacientes foram agrupados da
seguinte forma: cardiopatias congênitas acianogênicas (CCA) de shunt E-D; CCA
obstrutivas; cardiopatias congênitas cianogênicas (CCC) com hipofluxo pulmonar;
CCC com hiperfluxo pulmonar; cardiopatias congênitas (CC) complexas e
cardiopatias adquiridas.
Os controles eram observados com os mesmos
cuidados dos casos, utilizando um "CD branco" (sem música) que era
"tocado" pelos mesmos 30 minutos, sendo coletados os dados antes e
depois. Todo o processo feito através de um treinamento do observador
para garantir uma padronização.
Nos 6 meses de estudo, foram estudados 84 pacientes, sendo 63 casos (com musicoterapia) e 21
controles (sem musicoterapia). Foram excluídas apenas cinco crianças: três
controles, devido à recusa por não haver som no CD branco, o que é bastante
compreensível, uma vez que se tratava de crianças maiores, que achavam que o
tocador de CD estava quebrado, e dois casos, devido à recusa pelo estilo
musical (clássico). Essas crianças maiores tinham seu estilo musical já bem
definido, o que impediu a utilização de música clássica.
Nos Resultados, os dois grupos quanto à escala facial de dor segundo
Bieri et al., antes e depois da intervenção musicoterápica. Observa-se
uma diferença estatisticamente significante entre os dois grupos ao término da
intervenção (p < 0,001) (TABELA 3).
Já quanto as características dos dois grupos quanto à
FC, PAM, PAS, PAD, FR, SatO2 e T, antes e depois da intervenção. Antes da
intervenção, não houve diferença estatisticamente significante entre as
variáveis mencionadas. Após a intervenção, houve diferença significante entre
os grupos, com menores FC e FR para as crianças com musicoterapia quando
comparadas com as sem musicoterapia (p = 0,04 e p = 0,02, respectivamente). As
demais variáveis não apresentaram diferenças estatisticamente significantes (TABELA 4).
A generalização deste estudo é prejudicada pelo
tamanho amostral, por existir um único hospital específico nessa área no
momento da coleta dos dados. Outro aspecto metodológico é que os sujeitos deste
estudo não foram aleatorizados por faixa etária, devido à heterogeneidade dos
pacientes do centro estudado. Outra limitação diz respeito ao método subjetivo
de análise da escala facial de dor, na qual foi tentada uma diminuição dos
vieses através de palestra explicativa e com fácies semelhantes para unificação
do experimento, o que não garante a sua homogeneidade. Talvez mais observadores
de uma mesma fácies seria melhor. Temos, ainda, como possível limitação do
estudo, o uso de drogas de ação cardiovascular e sedativa que, mesmo não tendo
sido modificadas durante o experimento (30 minutos), poderiam de alguma forma
impedir uma avaliação mais fiel de cada paciente. Outra limitação de grande
importância foi a escolha musical de cada paciente, que, neste estudo, não foi
levada em conta e que é de grande importância para a aceitação do mesmo. Essa
escolha prévia pelo pesquisador foi na tentativa de homogeneizar o máximo
possível os pacientes estudados. O uso de CD branco nos controles dificultou a
aceitação das crianças maiores, uma vez que as mesmas se recusavam a escutar um
CD sem música alguma. Todas essas limitações reconhecidas pelos próprios
autores, porém sem invalidar os resultados do estudo.
Este trabalho mostrou a ação da música de forma
benéfica em crianças em pós-operatório de cirurgia cardíaca, através de alguns
sinais vitais (FC e FR), bem como, de forma subjetiva, na redução de dor
(escala facial de dor). Entretanto, existem algumas lacunas a serem preenchidas
nessa área, necessitando de um estudo mais aprofundado e específico sobre os
elementos da música (ritmo, tempo, harmonia e timbre), bem como uma maior
adequação ao indivíduo, suas necessidades e gostos.
REFERÊNCIA
HATEM,
T. P.; LIRA, P. I.; MATTOS, S. S. The therapeutic effects of music in children
following cardiac surgery. J Pediatr
(Rio J). vol. 82, n. 3, p. 186-192, 2006.






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