Comumente, ouvimos que o tempo de sono afeta diretamente a performance muscular de esportistas e da população em geral. Será que você, que vai à academia, ao ter o sono inadequado tem uma diminuição na força muscular e treinos de resistência?Um grupo de pesquisadores australianos realizou uma revisão sistemática, buscando pelos conceitos "inadequate sleep", "resistance exercise" e "performance and physiological outcome" em cinco bases de dados (Web of Science, Embase, Scopus, PubMed e EBSCOHost), resultando em 17 estudos avaliados após verificação de qualidade e critérios de inclusão. O resultado desta pesquisa foi publicado no Journal of Science and Medicine in Sport.
Um dos problemas observados na revisão é que estudos de sono não podem cegar os pacientes, portanto, eles já perdem pontos na qualidade metodológica. Destes, ainda dois não apresentaram os fatores de confusão e a taxa de participantes que não concluíram a pesquisa e, mesmo tendo sido avaliados com baixo escore, foram incluídos (?).
Os estudos avaliados trouxeram informações detalhadas e complementares: alguns deles avaliaram restrição enquanto outros privação de sono. Dentre os pertencentes ao primeiro grupo encontrou-se queda no desempenho da leg press e deadlift (ambos exercícios de membros inferiores) após uma noite de privação, enquanto que no supino apenas após três noites. Porém, em exercícios como extensor e flexor de joelhos em indivíduos do sexo feminino e flexor de ombros e antebraços nos do sexo masculino não foram notadas alterações. No entanto, vale considerar que houve discordâncias de acordo com o horário de execução dos exercícios: quando pela manhã o desempenho de força foi mantido no treino flexor de ombros e braços, mas quando à tarde houve decréscimo.
Já nos estudos de privação de sono não foi encontrada alteração nas taxas de cortisol e testosterona quando feita uma noite de privação. A perda de força muscular foi mais notada nos exercícios de flexão do joelho.
A revisão concluiu que tanto restrição quanto privação de sono sugerem decréscimo na força muscular ao desempenhar exercícios físicos. Porém, ainda não há clareza quanto ao papel dos hormônios neste processo. Sabemos que estes costumam alternar seus níveis ao longo do dia, principalmente o cortisol. Será que quando este se encontra mais elevado a qualidade dos exercícios decai (ou o contrário)?
Uma das reflexões que devemos fazer quanto ao estudo em análise é que houve certa heterogeneidade no desenvolvimento das pesquisas utilizadas. Quando consideramos 17 estudos incluídos na revisão, é preciso entender que não necessariamente avaliaremos características do conjunto, mas muitas vezes será uma análise de pontos individuais. Por exemplo: apenas um dos estudos investigados avaliou o efeito de noites seguidas de restrição de sono e apenas outros dois fizeram avaliação de resistência. Além disso, nem todos avaliaram ambos os sexos, nem os mesmos grupos musculares, nem mesmo utilizando um mesmo padrão de horas de restrição de sono (variando entre 2,5 a 6h de sono!) ou considerando o tempo de adaptação muscular dos indivíduos avaliados.
Se a Bela Adormecida malhasse, meus caros, poderíamos apenas dizer de certo que teríamos um interessante caso clínico a apreciar. Apesar que, uma maldição de 100 anos de sono profundo parece menos maléfica que 100 anos de privação de sono. Neste ponto, que bom que a bruxa não tinha ciência dos conhecimentos científicos atuais.
Por Lucas Soares Bezerra
Estudo analisado:
Knowles OE, Drinkwater EJ, Urwin CS, Lamon S, Aisbett B. Inadequate sleep and muscle strength: Implications for resistance training. J Sci Med Sport. 2018 Feb 2. pii: S1440-2440(18)30030-6. doi: 10.1016/j.jsams.2018.01.012.




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