Vinho e função cerebrovascular no diabetes: podemos brindar?


O resveratrol é um polifenol encontrado principalmente na uva e, consequentemente, no vinho (especialmente o tinto). Não é de hoje que se questionam as vantagens no consumo do vinho, não apenas em estudos dentro da cardiologia, mas também em outras áreas médicas. Dentro das pesquisas que têm demonstrado benefícios em seu uso, uma delas questionou se a função cerebrovascular de indivíduos com diabetes tipo 2 (DM2) poderia ser melhorada com sua prescrição.

O estudo em questão foi desenvolvido por um grupo de pesquisadores da Austrália, que em 2016 realizou um ensaio clínico randomizado, duplo cego, com 36 sujeitos (sendo 26 homens e 10 mulheres) entre 40 e 80 anos e portadores de DM2 e livres de doenças cerebrovasculares. Eles foram acompanhados ao longo de 28 dias, com intervalos semanais, quando tomavam a dose do composto. As doses eram de 0mg, 75mg, 150mg e 300mg.

Uma primeira reflexão ao trabalho: Sendo a DM2 uma condição bastante comum, não estranha uma amostra com apenas 36 sujeitos? Além de ser um tema que demanda maior amostra, seria também interessante que se tratasse de um estudo multicêntrico, uma vez que doenças cerebrovasculares estão bastante relacionadas a fatores de risco modificáveis pelas condições socioculturais e secundárias a outras patologias que seguem o mesmo pensamento (como hipertensão arterial e diabetes mellitus).
Então, o pequeno tamanho amostral é algo que pode ter influenciado os resultados de várias medidas que não alcançaram significância estatística (resposta cerebrovascular na artéria cerebral média (MCA): P=0.179 e na artéria cerebral posterior (PCA):P=0.426; índice de pulsatilidade na MCA: P=0.123; índice de pulsatilidade na PCA: P=0.312). E aí fica difícil de sabermos se de fato o resveratrol não atinge os efeitos avaliados ou se foi apenas obra do acaso.

A funcionalidade do resveratrol se daria a partir de um efeito vasodilatador, o que seria capaz de melhorar o desempenho cognitivo dos pacientes incluídos. Um dos pontos que poderiam ser questionados é quanto aos autores terem citado no artigo uma comparação às vantagens do chá savena sativa (wild green oat extract), que por sua vez também não possui efeitos e aplicabilidade clínica bem estabelecidos nem se trataria de uma terapia padrão-ouro para se fazer uma comparação entre os benefícios de ambas as terapias.

Conquanto desfecho primário, o estudo avaliou o efeito do resveratrol nas artérias cerebral média (MCA) direita e esquerda. Já o desfecho secundário considerou tais efeitos nas artérias cerebral posterior (PCA) direita e esquerda comparando o antes e depois do uso. Sendo que ao fim algumas das doses analisadas não apresentaram significância estatística em comparação ao placebo (0mg), como as dosagens de 150mg (p=0.208) e 300mg (p=0.166) ao avaliar a PCA esquerda.

Outra consideração que podemos fazer ao estudo é que não foi feita comparação de acordo com as diferentes terapias de controle ao diabetes que os pacientes faziam, daí não podemos inferir possível relação de potencialização do resveratrol (ou mesmo redução de seus efeitos) com melhora na condição avaliada.

De acordo com as conclusões do estudo, 75mg de resveratrol seriam suficientes para melhorar a função cerebrovascular em indivíduos diabéticos, não havendo vantagem no consumo das demais doses utilizadas. Apesar de até o momento não possuir evidências o suficiente que sustentem seu uso na prática clínica, acredito sim que ele cumpra com a função de nos lançar uma hipótese para futuras investigações, que seria: o uso crônico de resveratrol é capaz de melhorar e manter a função cerebrovascular e cognitiva nestes indivíduos? E daí cabe a nós agora continuarmos investigando e enquanto isso apreciando um bom vinho.

Por Lucas Soares Bezerra

Estudo analisado:
Wong RH, Nealon RS, Scholey A, Howe PR. Low dose resveratrol improves cerebrovascular function in type 2 diabetes mellitus. Nutr Metab Cardiovasc Dis. 2016 May;26(5):393-9. doi: 10.1016/j.numecd.2016.03.003.

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