Segue uma análise de um estudo, que vai ao sentido oposto da grande
maioria dos investimentos. Frequentemente, diversos estudos voltados para o
tratamento medicamentoso da hipertensão arterial são financiados por variadas
fontes, porém, pouco se investe na abordagem não medicamentosa da mesma.
Medidas como a redução do
consumo de álcool, o controle da obesidade, uma dieta equilibrada, uma prática
regular de atividade física e cessação do tabaco são negligenciadas, tanto por
profissionais de saúde, como por estudantes em formação, onde o foco,
geralmente, está centrado em aprender novas técnicas intervencionistas e novos
medicamentos.
O estudo a seguir, teve
como objetivo verificar a eficácia da educação médica proposta
sobre a adesão ao tratamento não farmacológico da hipertensão arterial em
pacientes cadastrados em unidades de saúde da família.
Trata-se de um estudo
realizado em 2013 (com duração de 3 meses) numa população de 261 pacientes
hipertensos cadastrados em unidades de saúde da família na área urbana do
município de Januária, no estado de Minas Gerais, região sudeste do Brasil. A
amostra foi composta por 216 pessoas (45 homens e 171 mulheres), onde o
critério de inclusão foi idade acima de 18 anos e o critério de exclusão foi a
recusa em participar de atividades educacionais. (Acta Paul Enferm., v. 26)
O estudo foi descrito como um
estudo coorte prospectivo, intervencionista, randomizado e não controlado.
Um fator muito importante ao se descrever um estudo, é ter os conceitos bem
sedimentados. Um estudo do tipo COORTE PROSPECTIVO se caracteriza por um estudo
OBSERVACIONAL, onde os pacientes não possuem o desfecho antes do inicio do
estudo e é voltado principalmente para análise da etiologia/fatores de risco e
estudos de prognóstico. No estudo, porém, os pacientes já são hipertensos e
serão submetidos a uma intervenção. Ele deveria ter sido descrito como um
ENSAIO CLÍNICO, que é um estudo experimental voltado geralmente à avaliação do
tratamento.
Outro ponto a ser ressaltado,
é que poderia ter sido descrita como foi feita a randomização da amostra, para
termos uma melhor visão sobre a confiabilidade dos resultados.
Seguindo a análise, o
estudo teve como proposta avaliar o controle da pressão arterial antes e depois
(3 meses) da intervenção (atividades educacionais). No primeiro momento, foi
aplicado um questionário individual de tipo adulto (recomendado pelo National Cancer Institute – NCI) através de visitas domiciliares.
O questionário foi apenas citado, não sendo disponibilizado nos anexos, o que
facilitaria o acesso ao mesmo.
Num segundo momento, após as visitas domiciliares, foram aplicadas as
atividades educativas. As mesmas foram conduzidas,
por meio de exposição dialogada, materiais escritos específicos, compartilhamento
de experiências e avaliação, tudo realizado em encontros regulares que duraram
60 minutos e com participação de 12 a 15 pessoas. O conteúdo programático era:
dieta (abordagens dietéticas para controlar a hipertensão - DASH, atividade
física (International Physical Activity Questionnaire -IPAQ), circunferência
abdominal (normal: até 88 cm - mulheres; 102 cm - homens), índice de massa
corporal (normal <25, sobrepeso ≥ 25 e <30, obeso ≥30), redução do
consumo de álcool e tabaco. O nível de pressão arterial calibrado foi classificado
como ótimo / normal / borderline, hipertensão fase um e dois, e estágio de
hipertensão três / hipertensão sistólica arterial isolada. As variáveis de
peso e pressão arterial foram avaliados de forma padronizada antes e depois de cada atividade educacional.
Três meses após a última
atividade sobre educação em saúde, uma visita domiciliar foi realizada para
coletar os dados, a fim de avaliar as possíveis mudanças que ocorreram durante o
processo de pesquisa.
Na análise de variáveis
categóricas, o Chisquare de McNemar foi usado, para avaliar os dados pareados
antes e depois do processo de educação em saúde. A análise de dados foi
realizada usando o software pacote estatístico para as ciências sociais - SPSS®
15.0 para Windows.
Como resultados, o estudo
mostrou uma mudança estatisticamente significativa no consumo de leguminosas,
conforme medido pelas proporções de uso apropriado deste tipo de alimento antes
e depois da intervenção educacional. Porém, não houve mudanças significativas
em relação ao consumo de frutas e vegetais (TABELA 2).
Quanto à prática de
atividade física, foi observada uma melhoria estatisticamente significante. Na
cessação do álcool e do tabaco, não houve mudanças positivas observadas. A
respeito dos dados antropométricos, houve uma redução significativa em relação
à circunferência abdominal em relação ao IMC (TABELA 2).
Também foi possível
observar uma melhoria em níveis de pressão arterial. As medidas de pressão
arterial encontrados na linha de base foram: SBP = 141,67 ± 23,94 mm / Hg e DBP
= 81,94 ± 12,13 mm / Hg. No final do estudo, os valores observados foram 131,32
± 21,63 mm / Hg e 81,76 ± 12,08 mm /Hg, respectivamente (TABELA 2).
O estudo se mostrou
interessante, com uma temática que geralmente é deixada de lado. Apesar das
limitações, dentre elas, algumas citadas pelos próprios autores, como o pouco
tempo de acompanhamento (3 meses) e a
falta de controle sobre o grupo estudado. Entre outras como, a presença de
quase 80% da amostra composta por mulheres (TABELA 1), o que, apesar da hipertensão
ser mais prevalente em mulheres, dificulta a validação dos resultados para os
homens, diante do pequeno número de homens participantes. Também poderiam, além
da parte de ações educativas, através de palestras dialogadas e materiais
escritos, desenvolver atividades práticas de melhora da qualidade de vida, como
exercícios físicos ensinados por educadores físicos e que poderiam ser
executados em seu cotidiano, instruções alimentares não só teóricas, mas
demonstrativas, com a confecção de workshop para adequação de sua alimentação
com componentes viáveis a seu nível socioeconômico, entre outras ações que
sairiam do campo teórico e se tornariam personalizados para aquela população,
podendo potencializar ainda mais os resultados obtidos.
Apesar das limitações já
comentadas, o estudo mostrou pontos importantes como o baixo nível educacional
observado na amostra (TABELA 1) como fator que pode prejudicar o comportamento,
dificultando a compreensão das orientações dadas, e, portanto, merece especial atenção
de profissionais.
Além de ressaltar que a modificação de hábitos alimentares não é uma tarefa simples, porque está presente desde a infância, relacionado à origem étnica e ao status socioeconômico de indivíduos.
Além de ressaltar que a modificação de hábitos alimentares não é uma tarefa simples, porque está presente desde a infância, relacionado à origem étnica e ao status socioeconômico de indivíduos.
E por fim, o estudo
conseguiu demonstrar o que se propôs, onde com as mudanças em alguns hábitos de
vida, foi observada uma diferença estatística significativa na redução dos
valores da pressão arterial, ratificando que o estilo de vida dos pacientes com
hipertensão arterial está relacionado ao controle dessa condição.
Dessa forma, esse estudo
demonstra um potencial relevante no estímulo de novos estudos sobre o assunto, para
identificar as melhores medidas de intervenção, a fim de alcançar um maior
comprometimento dos pacientes e obter resultados mais eficazes da promoção da
saúde. Além de motivar todos os profissionais de saúde a dar mais
atenção a essa abordagem não farmacológica que além de barata, se mostra
prática e eficiente.
Estudo Analisado:
LOPES OLIVEIRA, T.; de PAULA MIRANDA, L.; de SOUSA FERNANDES, P.; PRATES
CALDEIRA, A. Effectiveness of education in health in the
non-medication treatment of arterial hypertension. Acta Paul Enferm.; v. 26, n. 2, p. 179-184,
2013.






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