Atualmente o mundo enfrenta um grave problema de saúde pública, o
aumento do número de casos de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). Essas
doenças tornaram-se uma das principais causas de morbimortalidade, principalmente
em países subdesenvolvidos.
As DCNT são doenças multifatoriais que se desenvolvem no decorrer da vida adulta e por esse motivo são mais prevalentes em idosos. Contudo, foi observado nos últimos anos o aparecimento dessas doenças em pessoas cada vez mais jovens. Embora essas doenças sejam multifatoriais, principalmente as doenças cardiovasculares (DCV), há fatores de risco que representam uma importante parcela no aparecimento dessas doenças em jovens, como, por exemplo, o comportamento sedentário, a inatividade física e alimentação irregular.
Visando conhecer o risco cardiovascular de adolescentes, já que a presença de 2 ou mais fatores de risco nessa fase da vida já podem levar a um comprometimento cardiovascular nos próximos 10 anos, foi realizado um estudo transversal com 576 escolares de 15 a 19 anos de 18 escolas públicas estaduais de ensino médio da zona urbana de Campina Grande - PB entre setembro de 2012 e junho de 2013. O cálculo amostral evidenciou que seria necessário no mínimo 570 escolares para a validação do estudo, logo o estudo teve uma amostra aceitável. Os critérios de exclusão do estudo foram situações que prejudicassem a execução de atividade física ou impedisse a realização dos procedimentos do estudo: gravidez, doença subjacente que cursasse com alteração do metabolismo dos lipídeos e/ou da glicemia.
Foi utilizado o escore Pathobiological Determinants of
Atherosclerosis in Youth (PDAY), uma escala de avaliação de risco precoce para o desenvolvimento de doença aterosclerótica utilizada para jovens e adultos jovens de 15 a 34 anos. O PDAY classifica o risco de acordo com fatores modificáveis – colesterol não HDL, colesterol HDL, tabagismo, pressão arterial, índice de massa corporal (IMC), glicemia de jejum (GJ) e hemoglobina glicosilada HBA1c – e não modificáveis - idade e sexo.
Cerca de 77,2% dos jovens realizavam 150 minutos ou mais de atividade física por semana, mas o sexo masculino (83,8%) quando comparado estatisticamente com o sexo feminino (66,5%) tinha uma maior adesão à prática atividade física. Esse dado segue o padrão mundial. O sedentarismo esteve presente em 78,3% dos adolescentes, embora não tenha significância estatística, a população mais acometida foi a do sexo feminino (79,7%). O tabagismo teve uma baixa incidência e a diferença entre os sexos também não tiveram significância.
Ser do sexo masculino trouxe um aumento do risco em três vezes a pressão arterial aumentada e em duas vezes aumentado de ter HDL colesterol alterado em relação ao sexo feminino. Grande parte das mulheres apresentaram o HDL e o não HDL colesterol dentro da normalidade. Houve alteração da circunferência abdominal em apenas 3,3% e a grande maioria dos adolescentes eram eutróficos (62,8%). Não houve alteração significativa na glicemia dos adolescentes.
Quando avaliado pelo escore PDAY percebe-se que a maioria dos adolescentes têm um baixo risco cardiovascular (57,8), enquanto 31,8% apresentaram risco intermediário e 10,4% apresentaram baixo risco. Houve uma prevalência do risco intermediário e alto no sexo masculino (76,7%) enquanto as 28,1% das mulheres apresentaram esses graus de risco. A atividade física se comporta como um fator protetivo, enquanto que a circunferência abdominal aumentada e o sexo comportam-se como fatores de risco. Quando avaliados em conjunto o fator protetor da atividade física não foi significativo.
Esse estudo tem validade interna e não externa, ou seja, é aplicável apenas à população estudada, adolescentes de 15 a 19 anos de escolas públicas estaduais de ensino médio da zona urbana de Campina Grande, pois levou em consideração uma população específica de uma região, além de não ter levando em consideração jovens provenientes de escolas privadas e que não estão matriculados no ensino médio. Como é um estudo transversal, não é possível estabelecer uma relação causal, podemos apenas realizar um estudo descritivo.
Por José Ricardo Baracho
Estudo analisado:
- COSTA, Ivelise Fhrideraid Alves Furtado da; MEDEIROS, Carla Campos Muniz; COSTA, Fernanda Dayenne Alves Furtado da; et. al. Adolescentes: comportamento e risco cardiovascular. J Vasc Bras. 2017, Jul-Set;16(3):205-213.
Referência complementar
- CARMO, Eduardo Hage; BARRETO, Maurício Lima; SILVA JR, Jarbas Barbosa da. Mudanças nos padrões de morbimortalidade da população brasileira: os desafios para um novo século. Epidemiologia e serviços de saúde, v. 12, n. 2, p. 63-75, 2003
- CESSE, Eduarda Ângela Pessoa. Epidemiologia e determinantes sociais das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil. 2007. Tese de Doutorado.
- DE ANDRADE SCHRAMM, Joyce Mendes et al. Transição epidemiológica e o estudo de carga de doença no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, v. 9, n. 4, p. 897-908, 2004.



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