Sono, dieta, composição corporal e qualidade de vida: há uma relação de peso entre tais fatores?

Aqui vai uma análise que pode interessar bastante aos estudantes de Medicina e aos já profissionais da área: Se você tem o costume de dormir pouco tempo, de qual forma tal hábito poderia afetar sua qualidade de vida, composição corporal e dieta? Um estudo realizado com pacientes obesos, desenvolvido por pesquisadores italianos e publicado há um ano na Eating and Weight Disorders - Studies on Anorexia, Bulimia and Obesity, objetivou avaliar se o hábito de dormir poucas horas de sono influencia nas questões supracitadas .

Trata-se de um estudo transversal desenvolvido ao longo de um ano e meio (janeiro de 2014 a junho 2015). Os critérios de inclusão foram indivíduos entre 18 e 65 anos, com Índice de Massa Corporal (IMC) maior ou igual a 30kg/m² e brancos de etnia italiana. A amostra incluiu 137 pacientes (105 mulheres e 32 homens).

Uma das questões que chama atenção inicialmente é o fato de indivíduos obesos de um modo geral serem postos em um grupo apenas, sendo que aqueles categorizados como obesos grau I (IMC de 30 a 34,9kg/m²)  apresentam uma proporção de massa gorda bem menor que aqueles obesos grau II ou III (IMC entre 35 e 39,9kg/m² e igual ou maior que 40kg/m², respectivamente). Além disso, com o próprio passar da idade ocorre alteração da composição corporal. Entendemos que eles utilizaram o pensamento inverso, buscando associar as poucas horas de sono aos demais índices de qualidade de vida, mas será que não se trata de uma situação cíclica, em que cada lado afeta o outro?

Continuando a falar do estudo: os sujeitos passaram por avaliação física e os critérios de obesidade foram assegurados, como anteriormente dito, pelo IMC. A composição corporal foi também avaliada utilizando-se a Densitometria por emissão de raios x de dupla energia (DEXA). Todos tiveram a dieta acompanhada por nutricionistas treinados para a pesquisa, avaliando a ingesta  calórica através de proteína, gordura e carboidrato, baseando-se na Tabela de Composição Alimentar Italiana. A qualidade de vida foi avaliada com base no questionário Short-Form-36 e o tempo de sono foi definido como baixo <300min/dia e maior ou igual a 300min/dia.

Primeiro vamos chamar atenção à duração do sono que foi considerada como valor de corte: 300 minutos. Isso é o equivalente a 5 horas diárias. Será que dormir um mínimo de 5 horas por dia é uma duração suficiente? Será que uma estratificação mais ampla não poderia ter sido utilizada, uma vez que dormir 5 horas e 8 horas, por exemplo, parecem ser realidades bem diferentes e todos esses indivíduos foram postos no mesmo grupo? Uma outra questão a ser levantada é das diferenças de idade. Sabe-se que o tempo de sono é variável com a faixa etária, sendo que indivíduos mais velhos tendem a, fisiologicamente, dormir menos tempo. O estudo em questão pareceu desconsiderar essa diferença.

Dos resultados, o estudo encontrou no grupo de menor tempo de sono uma maior quantidade de massa gorda e maior consumo diário de carboidratos. Os dados estão melhor descritos na tabela abaixo.


Penso sim que o estudo traz uma visão interessante acerca dos efeitos de baixo tempo do sono em indivíduos obesos. Porém, por considerar na amostra apenas indivíduos obesos já tende a cair na dificuldade de se estabelecer uma relação em que o efeito não seja o causador da exposição, e vice-versa. Esse ponto poderia ter ficado mais claro observando por meio de uma metodologia longitudinal, por exemplo, se indivíduos com IMC normal com o passar dos anos, sofrendo restrição de sono, tenderiam a tomar uma dieta rica em carboidratos, se se tornariam obesos e teriam a qualidade de vida afetada. Uma outra forma seria avaliar apenas indivíduos com obesidade grau I e perceber se houve mudança em sua composição corporal e nos demais critérios abordados ao haver restrição de sono.

Poderia também ser desenvolvido um estudo retrospectivo, em que os pacientes fossem avaliados a partir do desfecho e daí pudéssemos investigar o padrão de sono nestes indivíduos.

Considero a potencialidade trazida por esta pesquisa e o quanto ela poderá incentivar que estudos ainda maiores sejam desenvolvidos e nos permita compreender ainda mais, do ponto de vista neurológico e metabólico, o quanto manter um sono saudável é importante para nossa saúde mental e física.

Por Lucas Soares Bezerra

Estudo analisado:
Poggiogalle E, Lubrano C, Gnessi L, Marocco C, Lazzaro LD, et al. Reduced sleep duration affects body composition, dietary intake and quality of life in obese subjects. Eating and Weight Disorders - Studies on Anorexia, Bulimia and Obesity. September 2016, Volume 21, Issue 3, pp 501–505.

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