Introdução
Devido ao fato de haver poucos estudos a
respeito da relação da frequência cardíaca com alterações metabólicas, foi
realizada uma pesquisa no município de Santa Cruz do Sul, Rio grande do Sul,
com o objetivo de verificar uma possível associação da frequência cardíaca e
disfunções metabólicas em crianças e adolescentes, tendo sido publicada na
Revista da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Com
o tema: Associação entre Indicadores Cardiometabólicos e Elevação da Frequência
Cardíaca de Repouso e Esforço em Escolares, tal estudo buscou por informações
que pudessem contribuir no desenvolvimento de mecanismos de prevenção e
tratamento de complicações cardiovasculares e metabólicas.
A Frequência Cardíaca (FC), por ser
utilizada para avaliação da resposta do sistema cardiovascular durante os
estados de repouso e esforço, se mostrou um bom parâmetro para investigação das
alterações autonômicas cardíacas. Desse modo, associando-se a FC com
indicadores cardiometabólicos, este estudo esperou ser útil na melhora da
qualidade de vida de crianças e adolescentes.
Métodos
Os participantes do estudo
de corte transversal, foram 2.098 indivíduos, de ambos os sexos (feminino e
masculino), com idades entre 7 e 17 anos, que pertenciam a escolas municipais,
estaduais e particulares da zona urbana e rural do município de Santa Cruz do
Sul.
Frequência Cardíaca em repouso e
esforço, pressão arterial (PA) em repouso; pressão de pulso (PP); duplo-produto
(DP); consumo de oxigênio pelo miocárdio (mVO2); indicadores bioquímicos,
avaliados através do soro, sendo eles perfil lipídico e glicêmico, e
antropométricos (índice de massa corporal e circunferência da cintura), foram
as variáveis utilizadas na avaliação do estudo.
A FC de repouso foi mensurada com o
escolar sentado, tendo repousado por 5 minutos, e avaliada pelo frequencímetro
modelo FT1 e sensor de FC anexado na linha peitoral sobre o esterno com cinta
elástica. O valor mais baixo mensurado pelo frequencímetro foi considerado para
FC de repouso.
A FC de esforço foi avaliada após a
realização de teste de corrida ou caminhada de 6 minutos, que aconteceu na pista
de atletismo da Universidade de Santa Cruz do Sul, de acordo com as orientações
do protocolo preconizado pelo Projeto Esporte Brasil. Os resultados foram
coletados imediatamente após a interrupção do teste. Os valores de FC de
esforço foram expressos em batimentos por minuto (bpm) e também obtidos pelo
frequencímetro.
A avaliação da PA foi realizada
utilizando-se o braço esquerdo, com o indivíduo sentado, após 5 minutos de
repouso, tendo sido obtidas duas medidas e utilizados esfigmomanômetro, estetoscópio
e manguito adequados ao perímetro braquial do escolar. Os valores mais baixos
de pressão arterial sistólica (PAS) e diastólica (PAD) foram considerados, e a
PP resultado da diferença entre estas duas. As avaliações foram realizadas na
Universidade supracitada.
Amostra de soro do escolar, em jejum
prévio por 12 horas, foi utilizada para avaliação dos indicadores bioquímicos
(perfil lipídico e níveis de glicose). Colesterol total (CT), fração HDL e
triglicerídeos foram dosados. O colesterol LDL foi calculado através da equação
de Friedewald, Levy e Fredrickson. As análises foram realizadas no equipamento
automatizado Miura One (I.S.E, Roma, Itália), foram utilizados kits comerciais.
Com peso e estatura, foi calculado o
IMC de cada aluno, portando-se balança e estadiômetro para avaliação. A CC foi
mensurada com a utilização de fita métrica inelástica e os valores de DP
obtidos por meio do cálculo de PAS x FC. Os valores de mVO2 foram obtidos
através da fórmula de conversão do DP: mVO2 = (DP x 0,0014) – 6,3, esta
proposta por Hellerstein e Wenger.
A classificação de Tanner foi
utilizada para avaliação do estágio maturacional (dividido em 5 fases), sendo
avaliados o desenvolvimento da pilosidade pubiana e dos genitais dos indivíduos
de ambos os sexos, estes tendo escolhido a fase que se assemelhava aos seus
estádios de desenvolvimento.
A análise estatística dos dados foi
realizada no programa estatístico SPSS c. 23.0, os quais foram apresentados em
média (desvio-padrão). Posteriormente, dividiu-se os valores da FC de repouso e
esforço em quartis, e a comparação dos valores médios dos indicadores
cardiometabólicos, de acordo a categorização com os quartis da FC de repouso e
esforço, foi realizada por meio da análise de variância (ANOVA), com teste Post
Hoc de Tukey para comparação entre os grupos.
A associação entre os valores de FC de
repouso e esforço com os indicadores cardiometabólicos foi testada por meio de
regressão linear, ajustada para sexo, idade, IMC e estágio maturacional. Foram
consideradas significativas as diferenças para p<0,05, para todas as
análises.
Resultados
Este estudo analisou 2.098
escolares, dos quais 903 (43%) eram do sexo masculino e 1195 (57%) do sexo
feminino, com médio de idade 11,50 anos (+- 2,77), como pode ser observado na
Tabela 1.
Comparou-se os valores médios dos
indicadores cardiometabólicos com os quartis da FC de repouso (Tabela 2) e foi
demonstrado que houve associação significativa entre DP (0,678 p<0,001) e
mVO2 (0,678 P<0,001) com FC em repouso. Também houve diferença significativa
para valores de colesterol LDL (p=0,003) e nos valores de DP e mVO2 de um
quartil para outro, tendo todos os quartis diferido de forma crescente entre
si. Não se obteve associação significativa entre PP e FC. Os indicadores cardiometabólicos foram
comparados com os quartis de FC de esforço (Tabela 3) e observados valores mais
elevados no quarto quartil em relação ao primeiro para PAS (108,71 mmHg;
p<0,001), PAD (66,43 mmHg; p<0,001), glicose (90,58 mg/dL; p=0,028) e
ácido úrico (4,40 mg/dL; p<0,001).
Houve fraca associação, apesar de
significativa, entre FC de repouso e indicadores cardiometabólicos (PAS,
glicose e colesterol HDL), parâmetros explicitados na Tabela 4.
Foi encontrada associação entre a FC
de repouso com o mVO2, e, para FC de esforço, somente o ácido úrico esteve
associado, o qual demonstrou ser um preditor do aumento da FC de esforço na
amostra avaliada.
Discussão
O estudo
analisado teve a intenção de avaliar as possíveis associações entre FC e
distúrbios metabólicos, tendo sido identificada associação entre FC de repouso
elevada (>=91 bpm) e maiores níveis de colesterol LDL (88,68 mg/dL;
p<0,001). Durante exercício, a FC elevada foi associada a valores elevados
de PAS (108,71 mmHg; p<0,001), PAS (66,43 mmHg; p<0,001), glicose (90,58
mg/dL; p=0,028) e ácido úrico (4,40 mg/dL; p<0,001).
Como visto, o ácido úrico demonstrou
boa associação com FC de esforço (B=0,73; p=0,015), e pôde ser considerado um
preditor do aumento de riscos cardiometabólicos.
A associação de PAS, glicose e
colesterol HDL com FC foi fraca, mas permitiu a suspeita de instalação de um
quadro de síndrome metabólica, mesmo que em estágio inicial.
A associação significativa entre DP e
mVO2 com FC em repouso foi bastante importante para a conclusão de que valores
elevados desta estão associados a piores condições funcionais em idades mais
avançadas.
DP e mVO2 expressam características de
trabalho cardíaco e, com isso, foi possível aferir que FC elevada em repouso
tenha relação com ocorrência de problemas de saúde. Isto é, quanto maior a FC
de repouso, maior a sobrecarga cardíaca do escolar, como explicitado no estudo.
A metodologia do estudo foi bem
realizada, com cálculos minuciosos e utilização de parâmetros confiáveis,
contudo a falta de valores de referência para DP e mVO2 para os escolares,
dificultou a interpretação dos resultados. Outra limitação foi a
impossibilidade de avaliar os valores de DP e mVO2 de esforço, mas, apesar
disso, com os achados obtidos pôde-se indicar a FC como uma medida potencial
para o diagnóstico de doenças metabólicas e cardiovasculares.
Por fim, concluiu-se que escolares com
FC de repouso >= 91 bpm apresentam médias mais elevadas de colesterol LDL.
Para FC de esforço, indivíduos com >= 185 bpm apresentaram elevação na PAS e
PAD, assim como nos níveis de glicose e ácido úrico.
Por meio desta análise conclui-se que
este estudo obteve importância na avaliação de risco cardiovascular em crianças
e adolescentes com FC de repouso elevada. Sendo assim, por meio deste e com a
realização de próximos estudos sobre o tema, procurando-se excluir as limitações
presentes neste (obter valores de referência de DP e mVO2 para a faixa etária
infantil seria uma forma de aumentar a significância do estudo), poder-se-á
implantar medidas de prevenção e direcionar o tratamento de complicações
cardiovasculares e metabólicas.
Referência
SILVA, Cristiane Fernanda da; BURGOS, Miria Suzana;
SILVA, Priscila Tatiana da; BURGOS, Leandro Tibiriçá; WELSER, Letícia; SEHN,
Ana Paula; HORTA, Jorge André; MELLO, Elza Daniel de; REUTER, Cézane Priscila.
Associação entre Indicadores Cardiometabólicos e Elevação da Frequência
Cardíaca de Repouso e Esforço em Escolares. Arquivos Brasileiros de Cardiologia,
Rio de Janeiro, v. 109, n. 3, p.191-198, set. 2017.






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