Vulvovaginite recorrente, por que tratar o parceiro se não é DST?


Na prática clínica, é muito comum tratar o parceiro de pacientes com quadros recorrentes de vulvovaginites por Candida Sp. De acordo com a literatura especializada, ainda que não seja considerada uma doença sexualmente transmissível (DST), os parceiros nesses casos comportam-se como portadores assintomáticos desses agentes, propiciando a recolonização vaginal após o tratamento clínico adequado.

Vamos analisar um estudo brasileiro que avaliou pacientes com quadro sugestivo de vaginite fúngica, bem como os parceiros sexuais daquelas com quadros de repetição.

Foi realizado um estudo prospectivo de 2007 a 2012 com 830 pacientes entre 18 e 65 anos de idade com quadro clínico compatível com vaginite fúngica (e.g. queixas de prurido, hiperemia). Pacientes com condições imunodepressoras foram excluídas, dado que a Candida Sp é uma espécie oportunista. O diagnóstico foi confirmado por isolamento fúngico em 40 pacientes, das quais 24 com quadros recorrentes. Somente 15 paceiros sexuais, do quais 10 assintomáticos, aceitaram participar do estudo e também foram submetidos a isolamento fúngico. Todos os pacientes com cultura positiva foram tratados a despeito da sintomatologia com Miconazol vaginal, Fluconazol 250mg oral e/ou Cetoconazol 400mg oral.

O estudo flagrou que Candida albicans foi a espécie mais isolada nos casais. Entre os 15 casais rastreados, houve uma concordância de 100% entre a espécie presente na mulher e seu parceiro (p=0,000). Como conclusão, os autores ressaltam que provavelmente os parceiros apresentam papel importante na perpetuação do quadro de vaginite recorrente por atuarem como portadores assintomáticos.

Vamos lá... este é um artigo interessante, porém com algumas limitações importante e seus resultados precisam ser analisados com cautela.

A primeira coisa que devemos nos perguntar a ler este artigo é que, embora seja descrito como um estudo longitudinal, não há descrição de como foi feito o recrutamento e seguimento clínico das pacientes e seus parceiros. O artigo até cita que os indivíduos foram acompanhados mensalmente e exames foram solicitados, mas não detalha por quanto tempo ou como foi realizado o seguimento. Dá impressão que temos na verdade um estudo de corte transversal!

Outra coisa pode acontecer aqui: efeito placebo. É claro que o indivíduo saber que está sendo tratado não influenciaria a cura micológica, ou seja, a negativação da cultura após o tratamento. Entretanto, a recidiva clínica pode não acontecer caso a paciente saiba que seu parceiro está ou não sendo tratado!

O achado de correlação de 100% entre a espécie de Candida da mulher e seu parceiro, apesar de significativo também não representa muita coisa. Isso por que não há dados suficientes no artigo que demonstrem uma comparação entre um grupo com recidiva versus sem recidiva para afirmar que essa correlação tem relação com a recorrência de fato. O contato sexual poderia por si só ser suficiente para explicar a proliferação de espécies idênticas no parceiro sem que isso seja influenciador para ter vaginite recorrente ou não. Seria necessário comparar pacientes com vaginite recorrente e seus parceiros com as pacientes com vaginite isolada ou assintomáticas mas com exame micológico positivo e seus parceiros.

Além disso, ainda que a comparação proposta tivesse sido feita e fosse estatisticamente significante, é importante salientar que em nenhum momento foi exposto o cálculo amostral que permita adequada generalização dos resultados. Se usarmos a informação da introdução de que a literatura mostra essa associação em 25% dos parceiros sexuais de mulheres com vulvovaginite recorrente, a amostra necessária para demostrar essas associação com uma precisão de 10% com um poder estatístico de 80% e significância de 5% é de 288 pacientes (esse cálculo pode ser feito no site do Laboratório de Epidemiologia e Estatística). Ou seja, seriam 288 pacientes e 288 parceiros! Entretanto aqui foram incluídas na análise estatística apenas 45 pacientes e 15 parceiros.

Por fim, vamos lembrar que a pergunta aqui (lembra da PICOTT question?) é referente a terapêutica (A terapia antifúngica em parceiros de pacientes com vulvovaginite fúngica recifivante reduz a chance de novos episódios?). Para este tipo de pergunta, o estudo com melhor desenho é o ensaio clínico randomizado. Os estudos observacionais não são bons para confirmar associações, mas sim para levantar hipóteses! O próprio artigo cita que estudos controlados prévios falharam em demonstrar esse benefício.

Dessa forma, esses resultados embora seja importante por revelar as etiologias específicas da vulvovaginite fúngica nesse contexto clínico e nos permitam levantar uma hipótese observacional, não se presta para firmar uma associação ou ainda propor conduta clínica.


Estudo analisado: Boatto HF, Girão MJBC, Moraes MS, Francisco EC, Gompertz, OF. O papel dos parceiros sexuais sintomáticos e assintomáticos nas vulvovaginites recorrentes. Rev. Bras. Ginecol. Obstet. 2015; 37(7): 314-318. DOI: 10.1590/S0100-720320150005098.

Por: Marcelo Santos

Sem comentários:

Enviar um comentário